O Retrato – Charlie Lovett

O País de Gales às vezes era muito frio em fevereiro. Mesmo sem neve ou
vento, o ar úmido do inverno permeava o sobretudo de Peter e se alojava em
seus ossos enquanto ele permanecia parado do lado de fora de uma das dúzias de
livrarias que lotavam as ruas estreitas de Hay. Apesar do brilho quente na vitrine
que iluminava uma exposição tentadora de romances vitorianos, Peter não estava
com pressa para abrir a porta. Fazia nove meses desde que ele entrara pela
última vez em uma livraria; alguns minutos a mais não fariam diferença.

Houvera um tempo em que tudo aquilo era muito familiar, muito seguro; quando
entrar em uma loja de livros raros teria sido um momento de empolgação,
encontrar outro apaixonado por livros teria sido parte de uma grande aventura.
Peter Byerly era, no final das contas, um vendedor de livros. Foi a profissão
que o levou à Inglaterra repetidas vezes e a profissão que o levou a Hay-on-Wye,
a famosa cidadezinha dos livros logo ao lado da fronteira do País de Gales,
naquela lúgubre tarde. Ele visitara Hay muitas vezes no passado, mas, naquele
dia, era a primeira vez que chegava sozinho.

Naquele momento, enquanto a dor causada pelo frio nas extremidades de seu
corpo arrastava-se para dentro dele, Peter não via uma grande aventura, mas
apenas um cenário desconfortável, um estranho e a probabilidade de a timidez e
o nervosismo se transformarem em ansiedade e pânico. A expectativa o fez suar
frio na nuca. Por que tinha ido até lá? Ele poderia estar seguro em sua sala de
estar com uma xícara de chá naquele exato momento, em vez de estar parado
em uma esquina fria com uma sensação de medo instalando-se no seu peito.